- E aí, quando vai sair?
Demorei para reconhecer a voz da mulher do outro
lado da linha. Percebi então que era a repórter daquele site alternativo que
tinha me ligado muitos meses atrás e me deixando meio assustado com o fato de
ela saber que eu havia sido o ghost writer da porra do “Muito Além do Mar
Vermelho.”
- Se você é tão bem informada já devia saber que eu
não vou escrever a continuação daquele troço.
- Que troço e que continuação?
- A continuação do “Muito Além do Mar Vermelho”.
- Ah, você ia escrever uma continuação, é?
- Não ia nem vou. Não quero mais saber dessas
paranoias bíblicas.
- Nem eu. Na verdade, eu estava querendo saber
quando você vai lançar o teu livro?
- O “Chutando o Demônio”
- É “Escrachando o Demônio com um Chute nos Bagos”.
- Que seja, mas quando vai sair?
- Quem disse que vai sair alguma coisa?
- Aquele teu amigo meio maluco. A gente tomou um
porre num bar e ele me contou tudo. Inclusive sugeriu que a gente, eu e ele,
montasse um esquema de divulgação multimidiático.
- Filho da puta!
- Quem?
- Esse meu amigo. Era um assunto particular, muito
particular.
- Bom, agora eu já sei. Quando você pretende
lançar?
- Preciso concluir a coisa.
- Concluir o quê?
- Aquilo tudo que eu disse. Precisa de uma
conclusão, mas não sei como fazer isso.
- Que tal você terminar com a frase: “E ficamos por
aqui, por enquanto?”
- Não é má ideia.
- Então faz isso. Depois te ligo pra gente combinar
o resto.
- Que resto?
- Que resto?
- Teu amigo te explica. Tchau!
Achei a ideia de “e ficamos por aqui, por enquanto”
muito boa.
Para algumas pessoas, aquilo, na cabeça delas, ia
realmente concluir tudo. Para outras, não ia concluir porra nenhuma.
De qualquer maneira, achei um final perfeito para “Escrachando
o Demônio com um Chute nos Bagos”.
Surgiu de novo aquela sensação de atirar uma pedra
na vitrine apenas para ouvir o vidro se estilhaçando.
Postei a frase no blogue, razoavelmente afastada do
resto do texto.
E, mais embaixo, coloquei: “Até a próxima, ou não.”
Mandei um e-mail pro meu amigo dizendo: “PAREI.
MANDA VER.”
Mandar ver o que eu não fazia a mínima ideia.
Mas estava feito.
Não queria mais ter que pensar nos bagos do Demônio
por um bom tempo. E isso em deu uma incrível sensação de alegria e liberdade.
Fui dar uma volta fora da cabana e, adivinhem,
estava chovendo.
Tirei a roupa e fiquei debaixo da chuva até sentir
frio.
Tudo o que eu queria agora era um banho quente.
No dia seguinte, bem cedo, tentei acessar o blogue,
mas só encontrei uma página em cinza bem claro.
Embaixo da tela, no lado esquerdo, um discreto
texto em itálico e letras minúsculas:
“aguardem o livro ‘Escrachando o Demônio com um Chute nos Bagos’...vendas em
breve, somente pela internet.”
Retomei a prática de jogar bolinhas pra meus
cachorros. No tempo livre, comecei a fazer desenhos de verdade nas paredes da
minha caverna.
Tempos depois, recebi um pacote pelos Correios. Uma
caixa parda, mais ou menos retangular.
Assinei o papel que o carteiro me deu. E entrei.
“Escrachando o Demônio com um Chute nos Bagos”
finalmente virara um livro
.
.
No lado esquerdo da capa, de cor quase tão parda
quando a do pacote dos Correios, uma inscrição em letras azuis minúsculas
grifadas: “não se defenda, chute primeiro, acerte nos bagos, não hesite,
chute já!”


Dentro do pacote, um bilhete de meu amigo:
“Marketing pesado. Chutando bagos em todas as direções. Dentro de alguns meses,
explode. Você vai viajar pra caralho. Agenda de workshops sendo preparada. Tem
gente que já tá prevendo que vai virar roteiro. Quem diria?”
Amassei o papel, guardei o cheque no bolso do
roupão e voltei a atirar bolinhas pros cachorros.
Que porra tinha acontecido com aquela merda que eu
tinha escrito?
Não tive coragem de abrir o livro. Já estava escuro
e nem eu e nem os cachorros conseguíamos enxergar as bolinhas direito.
Voltei pra casa e joguei o livro sobre a mesa da
cozinha com o cheque sobre ele.
Peguei o celular e mandei uma mensagem pra meu
amigo: “Se você der o endereço da minha casa pra mais alguém, corto sua
garganta!”

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