Às
vezes, fazemos coisas sem a menor lógica e ficamos nos perguntando pelo resto
da vida por que diabos as fizemos.
Já
dentro do helicóptero com Speed me contando do tempo em que carregava pasta de
cocaína para ser processada nos laboratórios de umas fazendas de uns políticos
famosos, me desliguei do papo e comecei a lembrar de como meu amigo
sonhava em
ser empresário de uma banda de rock and roll de sucesso.
Tentou
várias vezes, mas nenhuma das bandas que ele escolheu deu certo. Daí, após a
sua primeira reabilitação pelo consumo desenfreado de anfetaminas e cocaína,
virou editor de livros de autoajuda e acabou se dando bem.
Mas,
no fundo, acho que ele nunca abandonou totalmente seu sonho de manager de uma
banda de rock.
Passou-me
pela mente que ele tivesse abandonado os remédios com prescrição que tomava
desde seu último surto e tivesse voltado a usar as drogas ilegais, algumas bem
novas, aliás, e com efeitos bem diversos das que usávamos e abusávamos nos
tempos antigos.
Isso
talvez tivesse provocado em sua cabeça avariada a ideia de que, já que não
havia conseguido ser um empresário de sucesso do meio musical, me transformaria
agora em um superstar sei lá de que, já que nunca tinha sido roqueiro, muito
menos escritor de livros de autoajuda.
Resolvi
deixar de conversar comigo mesmo e voltei a prestar atenção às históricas “épicas”
de Speed, inclusive aquela que estava contando no momento sobre o dia em que
conheceu Pablo Escobar.
Enfim,
decidi descobrir o que realmente estava acontecendo com meu amigo. Afinal, era
o único que havia restado dos tempos, bem, daqueles tempos.
Talvez
ele fosse um elo perdido que eu necessitada juntar à corrente da minha
existência. E, de qualquer forma, os cheques que ele garantiu que começariam a
chegar me interessavam muito.
Nunca
havia visto o tal galpão antes, mas, com certeza, ele realmente tinha sido
transformado num estúdio de gravação de vídeo e, quem sabe, até de som.
Ou
talvez, analisando melhor, aquilo parecesse mais um “centro de operações”
escondido no meio da selva.
Quando
entrei, uma equipe de várias pessoas andava de um lado para o outro, preparando
isto ou aquilo, ou checando se isto ou aquilo estava funcionando mesmo.
Voltei
a conversar comigo mesmo e me perguntei aonde meu amigo conseguia arrumar
dinheiro para suas empreitadas malucas sem nunca ter sido achado morto numa
vala.
Assim
que me viu, veio me dar um longo abraço e disse a todos em volta: “Esse é o
cara!”
Depois,
sem me dar chance de respirar, informou que, pensando melhor, havia descartado
a ideia de eu aparecer nos vídeos só com óculos escuros e chapéu sob um lenço
com as cores da Jamaica. Descartou também a ideia do Homem Aranha, mas tinha
passado a noite toda acordado pensando na possibilidade do Coringa.
Claro,
isso envolveria gastos com direitos autorais altos e uma negociação complicada
com os gringos de alto escalão. De repente, teve o que chamou de “revelação” e
lembrou dos políticos para quem Speed transportava pasta de cocaína para ser
processada nos laboratórios clandestinos enrustidos em suas fazendas nada
clandestinas.
Embora
Speed tivesse abandonado o negócio, já que ficou muito marcado e poderia virar
presunto em um acidental acidente aéreo com seu helicóptero, o esquema de
processamento de pasta não só prosseguia e inclusive tinha se expandido,
incluindo agora redutos no Paraguai, Colômbia, Ilhas Virgens e Afeganistão
(nesse último destino, era óbvio que estavam se preparando para entrar pesado
no ramo da heroína).
Como
disse, Speed estava fora, mas, como o assunto, na época, foi totalmente abafado
por toda a mídia, devido ao poder dos políticos brasileiros envolvidos, não
custava nada reativar alguns contatos que passariam a sugerir que mais “gente
graúda” também estava interessada em ser sócio no esquema.
A
proposta dessa “gente graúda” ávida a explorar um novo mercado era bem simples
e muitos chamariam simplesmente de chantagem: ou o grupo original concordava
com a sociedade, ou essa “gente graúda” tinha meios mais do que suficientes de
fazer a história toda vazar na mídia, nacional e internacional.
Como
um voto de confiançae “boa-vontade” na nova sociedade, os “donos” do negócio
teriam que depositar quantias significativas em paraísos fiscais, em nome de
empresas que seriam devidamente listadas e que, todos sabiam, lidavam com
tráfico de armas e de mulheres da Europa Oriental.
Mas
de onde afinal sairia o dinheiro para pagar os direitos de uso das imagens de
super heróis em quadrinhos nos vídeos de divulgação do “Escrachando o Demônio’?



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