Ao
contrário do que previa, foi até divertido gravar aquela porra toda.
Houve
um momento que me senti até mesmo “entrando” na personagem e dizendo minha fala
como se fosse o Coringa.
Nesse
momento, senti um calafrio e pedi pra aumentarem um pouco a temperatura do ar
condicionado.
Passamos
a manhã toda gravando e o comercial saiu de lá já editado.
Na
saída, sugeri, até agora não entendo o motivo, que o Coringa podia ser um dos
personagens dos próximos workshops. Speed ligou o helicóptero e a conversa
ficou por ali.
####
A
merda é que a maquiagem pesada do Coringa em volta da boca atrapalhava a minha
dicção. Então eu tinha que praticamente falar tudo gritando, para que as
pessoas conseguisse ouvir direito.
O
mais estranho é que não consigo me lembrar de absolutamente nada do que eu ou o
Coringa dissemos naquela noite. Só sei o que li nos jornais do dia seguinte, já
que o workshop ganhou grande destaque na imprensa.
Ao
que parece, eu, ou o Coringa, convocara uma rebelião contra todas as
autoridades constituídas, em especial as religiosas, já que elas eram as
responsáveis pelas guerras, pela fome e por toda a miséria que acometia
atualmente a humanidade.
O
engraçado – e estranho – é que todos os workshops eram gravados e filmados,
como parte de um projeto de lançar um DVD. Nesse dia, porém, os aparelhos
pifaram, sem que os técnicos tenham conseguido definir o motivo, já que o resto
do equipamento de palco estava funcionando normalmente.
Resumindo,
não havia qualquer registro sonoro ou visual sobre o que aconteceu naquela
noite.
Também
não me lembro de ter usado minha habitual tática de fugir pelos bastidores. A
única coisa de que me recordo é de mim encostado num muro, enquanto esfregava
violentamente o rosto, procurando arrancar com as mãos a maquiagem do Coringa.
Um
mendigo se aproximou de mim e me ofereceu algo dentro de uma garrafa de
plástico. Agradeci, mas disse que não podia beber mais. Ele me explicou que não
era para beber, mas para passar o líquido no rosto e ajudar a tirar a maquiagem.
Esfreguei o líquido e facilmente meu rosto ficou totalmente limpo.
“Agora,
você pode dar sua mijada de costume. Mas nunca mais se meta com o Coringa, nem
brincando. Ele é pior que o Demônio e sua maldição já matou muita gente”, disse
o mendigo, se afastando lentamente.
####
Alguns
dias depois, meu amigo ligou.
-
Cara, que sucesso! Não imaginava que o workshop com o Coringa ia ter tanta
repercussão. E a ideia foi sua, lembra? Você já viu a cobertura maluca que a
mídia anda dando até hoje ao assunto?
-
Não.
-
Cada pessoa que esteve lá e é entrevistada diz uma coisa completamente
diferente da outra. Discutem que o Coringa nunca disse tal coisa, mas outra
entra em enquadramento no vídeo e garante que ele disse exatamente tal coisa.
Uns dizem que foi a coisa mais importante que já viram na vida. Outros garantem
que vomitaram quando ouviram aquelas coisas, embora, no fundo, admitissem que
concordavam com o que foi dito. Já começaram a aparecer pichações em algumas
cidades,com dizeres tipo “Só o Coringa chuta os bagos do Demônio. Rejeite
imitações.”
-
Você esteve lá?
-
Não consegui chegar a tempo. O helicóptero do Speed deu pane do nada. Mas, hoje
de manhã, aqui no galpão, já decidimos que não vamos mais fazer os comerciais
com o Flash, Batman, etc. Vamos centrar tudo no Coringa. Você vai fazer novos
comerciais, no mesmo estilo, mas dizendo algumas das frases do que você disse
naquele workshop e convidando para o próximo.
-
Velho, eu não me lembro de absolutamente nada do que eu disse naquela noite.
-
Nada?


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