Aproximei-me
de uma assistente que tinha a cara menos estranha do grupo e perguntei, com ar
de preocupação, se, por acaso, meu amigo não havia deixado de tomar os remédios
prescritos durante a sua mais recente reabilitação e voltado às drogas,
digamos, ilegais.
Ela
me respondeu com um revirar de olhos que até hoje não entendi o significado.
No
centro do galpão, havia uma dessas mesas compridas, meu amigo à cabeceira e
seis ou sete assistentes, incluindo Speed, sentados ao redor. Ofereceram-se uma
cadeira e, após perguntarem se alguém queria beber ou comer algo, meu amigo
começou a expor “o plano”.
Eu
gravaria um comercial maquiado como o Coringa, mas de forma estilizada –
exigência dos detentores dos direitos autorais. Meu rosto aparecia em close,
com cortes na altura do começo do cabelo na testa e no queixo, o que daria
destaque aos movimentos da grande boca. Meu texto se resumia à citação em azul
na capa do livro pardo: ““não se defenda, chute primeiro, acerte nos bagos,
não hesite, chute já!”
A
câmera se afastaria do meu rosto, até me pegar de costas, sentado numa cadeira
iluminada apenas por um holofote que destacava a minha silhueta contra o escuro
do resto do cenário.
Embaixo
da tela, num letreiro, agora em letras maiúscula e amarelas: “ESCRACHANDO O
DEMÔNIO COM UM CHUTE NOS BAGOS. À VENDA ON LINE (link do site) E AGORA EM TODAS
AS LIVRARIA”.
-
Por que o Coringa?, perguntei.
-
Porque é ao mesmo tempo assustador e engraçado”, respondeu uma das garotas da
produção.
-
Mas esse é só o primeiro, prossegui meu amigo. Num dos vídeos você aparece de
Coringa; em outro, como o Flash, e outro, como o Batman. Vão passar os três
comerciais alternados, com várias inserções ao dia.
-
Vocês despirocaram de vez? Tô fora dessa merda.
Meu
amigo voltou à carga: “Cara, vê se entende, vai ser o primeiro livro de
autoajuda recomendado por super heróis.”
-
Toda essa confusão legal, de paraíso fiscal, chantagem, dinheiro lavado pra
comprar direito autorais. Vocês já pensaram na grande bosta que pode dar isso?
-
Nós já temos um puta grupo de advogados especializado trabalhando nisso. Na
verdade, eles são especialistas em apagar todos os rastros e pegadas”, disse
confiante meu amigo.
Que
prosseguiu: “Isso me deu outra grande ideia. Vamos fazer um quarto comercial
com você caracterizado como Saul Goodman.
-
Quem é Saul Goodman?, perguntei.
-
O advogado do Walter White, do Breaking Bad. Tão fazendo uma série sobre o Saul
antes de ele conhecer do Walter. Já está na segunda temporada e começou a
bombar na TV a cabo.
-
Gente, agradeço a atenção, mas estou desesperadamente precisando me esconder em
minha caverna. O Speed poderia me levar de volta agora?
Chovia
quando o helicóptero desceu no gramado de casa.
Perguntei
pro Speed se ele não queria esperar um pouco para decolar de novo, mas ele me
garantiu que, depois das montanhas, o tempo estava ótimo.
Em
vez de tomar a direção de casa, fui para a caverna.
Cheguei
lá ensopado, mas fiquei vestido até anoitecer, quando ouvi minha mulher colocar
uma bandeja com comida na entrada da caverna.
Ela
sabia que o melhor a fazer, nessas ocasiões, era me deixar distante de todos,
inclusive dela.
Escureceu
por completo. Acendi os lampiões e fui buscar a bandeja que minha mulher havia
trazido.
Aproximei-me
dos lampiões e comi.
Continuava
chovendo. Recolhi alguns galhos secos no chão da caverna e, usando um pouco de
querosene de um dos lampiões, acendi uma minifogueira. Dormi com as roupas
ainda úmidas, ouvindo a chuva caindo lá fora.
Acordei
com um raio de sol que atingiu meus olhos a partir de uma fenda numa das
paredes de rocha.
Levantei,
fui lá fora e disse em voz alta: “Já que não consegui me tornar invisível nem
um pregador bêbado de uma igreja no deserto, vamos lá então, chutar os bagos do
demônio.”
Liguei
para meu amigo e perguntei se Speed tinha condições de vir me buscar a tempo de
participar do início da produção do comercial com o Coringa. Ele respondeu que
tudo bem.
Aguardariam
minha chegada para começar os preparativos. Minha presença ajudaria.


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